Take a photo of a barcode or cover
"Hoje, sei o que então ignorava, que não podemos exprimir os afectos de uma forma adquirida, canalizada, articulada, e que não posso determinar a sua forma no lugar de quem quer que seja."
77
Não dá para afastar a sensação de falhanço após a leitura deste livro. Falhanço porque não me provocou uma reação substancial, um interesse genuíno; ou falhanço porque, como à narradora (se assim for, bravo, Szabó!), me é impossível mais do que seguir o rumo da história, incapaz de erguer um dedo para a alterar.
A Porta anuncia-se-me como uma história de obsessão; uma história sobre o destino, e a justiça, talvez - onde as dimensões política e autobiográfica não se separam da força anímica da narrativa.
Magda Szabó, como a narradora sua homónima, escritora rotulada como inimiga pública pelo então recém instalado Partido Comunista Húngaro, passa pelos meandros do descrédito, do banimento (palavra feia como o que representa) e da perda pessoal: o marido, escritor e tradutor, morre com 68 anos.
Por outro lado, como a fonte de obsessão da sua narradora, Emerence, Szabó presencia a ocupação alemã e a ocupação soviética de '44/'45; enfrenta, claro, terrores (diretos ou indiretos) que atualmente - e localmente - apenas podemos imaginar.
Neste sentido, e lendo este livro como porta de entrada para a vida da escritora, o documento não deixa de ser substancialmente interessante. Mas, mesmo assim, não me causa o assombro que vejo refletir na crítica.
A estrutura elíptica do seu romance, começando num pesadelo para culminar noutro (ou no mesmo) é - pegando desde logo no seu título - uma espécie de parábola cujo objetivo primeiro é o de fazer ver ao leitor que o pior crime não é o de colher o corpo de alguém, mas o de tolher a sua dignidade, aquela em que reside na sua individualidade. A Porta/porta é pois o último elemento que resguarda e respeita a intimidade do indivíduo. Derrubada essa barreira, o terreno é acidentado, sensível e, neste caso, desemboca na tragédia.
"A gente não morre facilmente, aprenda isso, e, mais tarde, aquilo a que se resistiu torna-nos tão inteligentes que desejamos, ainda assim, voltar a ser estúpidos, completamente estúpidos."
133
A ajudar a esta expressão alegórica da história, os momentos de patético repetem-se ao longo das suas muitas páginas: tentativas falhadas de aproximação por parte da narradora à sua empregada, objeto da sua paixão/admiração/obsessão; artimanhas de Emerence, a empregada, para se escudar desta latente afeição; cenas triviais da política cultural húngara jogando com Magda (qualquer das Magdas) como com uma marionete...
As personagens são outro desafio:
A narradora é uma alma de certo modo desinteressante, uma mulher subjugada ao poder, que perdeu parte da sua independência e, consequentemente, da sua paixão;
Emerence é uma criação complicada, baça, difícil de deslindar - demasiado para mim que não sou dotada de curiosidade pela intricada personalidade humana.
A história que se desenrola frente aos nosso olhos não é um melodrama, mas um monodrama, como a narradora chega a dizer. Toda a narrativa se constrói e se desenrola em torno deste elemento, de Emerence, desta chave de preocupação da narradora.
Em momento nenhum nos é dado descanso: como no pesadelo que nos anunciam as primeiras páginas somos, como leitores, forçados a fazer um caminho alheio à nossa vontade, suportando desígnios superiores.
Existe, contudo, escudada na dureza da narrativa, a moral que me desgosta um pouco e que não é o que procuro na literatura. A escrita é inteligente e introduz logo de início o leitor a um mistério que só será resolvido nas últimas páginas: Emerence morrerá (não há spoiler porque este passo serve apenas como engodo).
Quem é Emerence? Como morre? Porquê? Estas e outras são perguntas que agarram o leitor ao livro.
Mas a escrita torna-se repetitiva, exaustiva a partir de determinado ponto. A narradora perde o controlo da narrativa e já não vê com os olhos da objetividade, mas da emoção e do idealismo que a acompanha.
O sucesso de A porta parece-me, liga-se com a sua vertente de culto, a admiração que os leitores - justamente - prestam a determinadas obras que, em virtude de elementos muito pessoais, lhes falam mais de perto. No meu caso, no entanto, tal não aconteceu.
A perdição pela salvação é coisa em que não acredito. Como não acredito em boas intenções. As intenções servem o propósito de beneficiar o seu autor. Daí não ser nada de admirar que as "boas intenções" de Magda originem a morte de Emerence.
"[Eu]era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo machado cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição."
106
*A edição, parece-me, tem os seus problemas também. Problemas que se relacionam com o sistema da língua portuguesa, e com as opções de estilo e ortografia (nomeadamente o uso de sinais gráficos e de pontuação) adotadas pelo tradutor. Todavia, desconhecendo o idioma húngaro, as minhas críticas ficam-se por aqui.*
77
Não dá para afastar a sensação de falhanço após a leitura deste livro. Falhanço porque não me provocou uma reação substancial, um interesse genuíno; ou falhanço porque, como à narradora (se assim for, bravo, Szabó!), me é impossível mais do que seguir o rumo da história, incapaz de erguer um dedo para a alterar.
A Porta anuncia-se-me como uma história de obsessão; uma história sobre o destino, e a justiça, talvez - onde as dimensões política e autobiográfica não se separam da força anímica da narrativa.
Magda Szabó, como a narradora sua homónima, escritora rotulada como inimiga pública pelo então recém instalado Partido Comunista Húngaro, passa pelos meandros do descrédito, do banimento (palavra feia como o que representa) e da perda pessoal: o marido, escritor e tradutor, morre com 68 anos.
Por outro lado, como a fonte de obsessão da sua narradora, Emerence, Szabó presencia a ocupação alemã e a ocupação soviética de '44/'45; enfrenta, claro, terrores (diretos ou indiretos) que atualmente - e localmente - apenas podemos imaginar.
Neste sentido, e lendo este livro como porta de entrada para a vida da escritora, o documento não deixa de ser substancialmente interessante. Mas, mesmo assim, não me causa o assombro que vejo refletir na crítica.
A estrutura elíptica do seu romance, começando num pesadelo para culminar noutro (ou no mesmo) é - pegando desde logo no seu título - uma espécie de parábola cujo objetivo primeiro é o de fazer ver ao leitor que o pior crime não é o de colher o corpo de alguém, mas o de tolher a sua dignidade, aquela em que reside na sua individualidade. A Porta/porta é pois o último elemento que resguarda e respeita a intimidade do indivíduo. Derrubada essa barreira, o terreno é acidentado, sensível e, neste caso, desemboca na tragédia.
"A gente não morre facilmente, aprenda isso, e, mais tarde, aquilo a que se resistiu torna-nos tão inteligentes que desejamos, ainda assim, voltar a ser estúpidos, completamente estúpidos."
133
A ajudar a esta expressão alegórica da história, os momentos de patético repetem-se ao longo das suas muitas páginas: tentativas falhadas de aproximação por parte da narradora à sua empregada, objeto da sua paixão/admiração/obsessão; artimanhas de Emerence, a empregada, para se escudar desta latente afeição; cenas triviais da política cultural húngara jogando com Magda (qualquer das Magdas) como com uma marionete...
As personagens são outro desafio:
A narradora é uma alma de certo modo desinteressante, uma mulher subjugada ao poder, que perdeu parte da sua independência e, consequentemente, da sua paixão;
Emerence é uma criação complicada, baça, difícil de deslindar - demasiado para mim que não sou dotada de curiosidade pela intricada personalidade humana.
A história que se desenrola frente aos nosso olhos não é um melodrama, mas um monodrama, como a narradora chega a dizer. Toda a narrativa se constrói e se desenrola em torno deste elemento, de Emerence, desta chave de preocupação da narradora.
Em momento nenhum nos é dado descanso: como no pesadelo que nos anunciam as primeiras páginas somos, como leitores, forçados a fazer um caminho alheio à nossa vontade, suportando desígnios superiores.
Existe, contudo, escudada na dureza da narrativa, a moral que me desgosta um pouco e que não é o que procuro na literatura. A escrita é inteligente e introduz logo de início o leitor a um mistério que só será resolvido nas últimas páginas: Emerence morrerá (não há spoiler porque este passo serve apenas como engodo).
Quem é Emerence? Como morre? Porquê? Estas e outras são perguntas que agarram o leitor ao livro.
Mas a escrita torna-se repetitiva, exaustiva a partir de determinado ponto. A narradora perde o controlo da narrativa e já não vê com os olhos da objetividade, mas da emoção e do idealismo que a acompanha.
O sucesso de A porta parece-me, liga-se com a sua vertente de culto, a admiração que os leitores - justamente - prestam a determinadas obras que, em virtude de elementos muito pessoais, lhes falam mais de perto. No meu caso, no entanto, tal não aconteceu.
A perdição pela salvação é coisa em que não acredito. Como não acredito em boas intenções. As intenções servem o propósito de beneficiar o seu autor. Daí não ser nada de admirar que as "boas intenções" de Magda originem a morte de Emerence.
"[Eu]era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo machado cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição."
106
*A edição, parece-me, tem os seus problemas também. Problemas que se relacionam com o sistema da língua portuguesa, e com as opções de estilo e ortografia (nomeadamente o uso de sinais gráficos e de pontuação) adotadas pelo tradutor. Todavia, desconhecendo o idioma húngaro, as minhas críticas ficam-se por aqui.*