mathiaseichbaum 's review for:

Guerra e Paz by Leo Tolstoy
5.0

"Nos acontecimentos históricos, é mais evidente do que em qualquer outro caso a proibição de provar o fruto da árvore do conhecimento. Só a ação inconsciente dá frutos, e a pessoa que desempenha um papel nos acontecimentos históricos nunca entende seu significado. Se tenta compreendê-lo, dá-se conta de que isso é infrutífero." (p. 1941)

A liberdade é uma ilusão, ao mesmo tempo em que é a essência da vida. Mesmo sendo a essência da vida, a consciência de liberdade é uma força que a lei da necessidade, a razão, explica e, portanto, limita. A história é regida por leis e todo movimento que nós fazemos não é livre. Ao mesmo tempo, toda a narrativa e as reflexões ao longo do livro mostram que não temos acesso à totalidade dessas leis e que não é possível discernir o sentido do que se está fazendo num determinado momento. Só se pode definir as leis para o passado - e mesmo assim não totalmente - se forem sabidas as condições espaciais e o máximo possível das relações de causas e consequências de cada ação. Quanto mais conhecimento temos desses três elementos - espaço, tempo e causas -, menos uma ação vai parecer livre.

Mas, para que a história ocorra, há uma condição, um fato determinante contraditório apenas na aparência: no presente - esse momento infinitésimo -, as ações parecem ser inteiramente livres. É essa condição de aparente liberdade que permite a ação, que permite a história. É no momento infinitésimo de total liberdade aparente onde talvez se encontre Deus, a causa de tudo, agindo através da Providência, que une o acaso às Suas determinações.

Só depois que percebemos que as ações não foram livres; só depois, a posteriori, que descobrimos o sentido que um acontecimento ou um ato teve, que percebemos que não poderia ter acontecido outra coisa que não aquela que de fato aconteceu. O que nos dá a liberdade aparente é não sabermos qual o sentido de um ato no momento, isto é, não sabermos qual lei está agindo sobre nós com que força em um determinado momento. Ou seja, a condição da história ocorrer é exatamente o fato de não sabermos o sentido final dela.

É interessante o final da primeira parte do Epílogo, com a família junta e terminando com Nikolai, o filho de Andre, e seu sonho. Sabendo que Tolstói pensava em escrever Guerra e Paz como um livro sobre os Dezembristas, penso até que Nikolai poderia ser um delas. O livro seria, desta forma, a explicação máxima de um desses: Nikolai. Ele é explicado a partir de todas as relações espaciais, a partir da distância temporal - que Tolstói, quase 40 anos depois, conseguia ver - e com o máximo das causas e consequências que agiram sobre ele. Por todas estas forças que agiram nele, ele poderia ser um Dezembrista. Pelo mundo que conhece, pelas ideias que escutou, pelo pai ter morrido na guerra, pela família que tem, pela influência do tio Pierre e das ideias de sociedades secretas... Tudo isso tem as suas próprias causas, que são também buscadas. E tudo isso, todo o livro Guerra e Paz, seria necessário para explicar apenas um dos participantes, e mesmo assim de forma incompleta. Como se poderia explicar todos? Como se poderia ter a pretensão de entender e explicar as causas completas de um acontecimento?

Não sei se se trata disso ou se essa ideia não tem nada a ver. O importante é que não é possível discernir as causas dos acontecimentos na história. Trata-se de discernir as leis. E a maior delas, nessa ideia, seria que Nikolai só pode ser um Dezembrista porque, no momento infinitésimo do seu presente, ele tem uma consciência da própria liberdade para agir assim.

Acho bonita a imagem final da narrativa também. Na primeira parte do Epílogo, temos aquela família junta, com Pierre, Natacha, todos os filhos deles; Nikolai, Maria, todos os filhos deles; a mãe de Nikolai, sua companhia, Sonia e Nikolai filho de Andrei. Há pessoas que discordam e até brigam, como Nikolai com Pierre, em relação à possibilidade de ir contra o governo (ainda de Alexandre, não de Nicolau I, como seriam os Dezembristas). Mas isso não é tão importante, isso diz respeito ao mundo. O que importa na vida individual, particular, é amar a todos, é aceitar. Afinal, tudo que é discutido na parte final deve ser visto com a ideia de que a racionalidade é limitada, não é possível apreender o sentido final das coisas, e o único que pode decidir o rumo das coisas é Deus.