A review by marcio
Rilke shake by Angélica Freitas

5.0

Por vezes penso que uma das das maiores dificuldades que as pessoas encontram para ler poesia é vê-la como uma forma de esfinge que devorará os seus incautos leitores, com suas longas métricas e sua voraz boca lírica. Nada mais enganador. A poesia é uma forma de expressão mais acessível do que parece e mesmo quando se faz livre e informal não se torna menos preciosa.

E assim o faz Angélica Freitas, com humor, mas também (auto-)ironia e (auto)-paródia, que me leva a poetas como Nicanor Parra, Leminski, Cacaso, Adília Lopes, e em certo sentido, Ana Cristina César!

família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado