A review by tomasmoreira21_
O Primo Bazilio by Eça de Queirós

4.5

Após alguns anos de intervalo e de receio, creio que fiz as minhas pazes com Eça de Queiroz. No secundário, Os Maias acabaram por não me marcar muito e o meu fascínio ficou reservado para outras obras e outros autores. Contudo, Eça é um dos autores portugueses mais aclamados e a verdade é que havia muito nos Maias para admirar - isto suscitou-me uma curiosidade crescente em regressar à sua obra e ler outro dos seus romances. A minha prima (fã devota da escrita queirosiana) emprestou-me, então, a meu pedido, um livro que ela considerava indicado para mim. Assim que comecei a ler O Primo Basílio, fui acometido por um entusiasmo quase pueril. A ação está limitada a um espaço e a um conjunto de personagens limitados, enquadrados num episódio doméstico, como confirma o subtítulo do romance, o que inflama a tensão e encoraja o leitor a continuar a desbravar as páginas. A capacidade crítica e o humor de Eça são sem dúvida os protagonistas desta obra - os personagens foram desenvolvidos de forma genial e inseridos como peças num jogo de tabuleiro, cada um com uma funcionalidade muito específica. Luiza é a personagem ideal para conter em si ambas as paixões e tentações romanescas e as obrigações de uma vida pacata, modesta e honesta, que é totalmente sacrificada a partir do momento em que este "anjo" e "esposa-modelo" sucumbe à tentação do amor passado do seu primo Basílio - o adultério e o incesto são temas caros para Eça, como já sabemos. A situação em si é uma ironia e um exemplo do humor retorcido e crítico de Eça - este aristocrata sofisticado (sofisticado até demais para Portugal, como ele próprio e o visconde Reinaldo acreditam) de palavras poéticas e de promessas grandiosas não faz jus aos heróis românticos que procura imitar e ele próprio o diz. Assim que é confrontado com as consequências dos seus atos imorais, Basílio retira-se rapidamente da equação e não só foram as palavras levadas pelo vento como também foi levado ele para França, onde se podia exilar dos seus pecados, até porque "morrer de amor" é uma banalidade inoportuna para quem tinha acabado de acumular tanta fortuna. Jorge é uma personagem interessante também e após a primeira metade do romance, é incrível como podemos perceber que nem mesmo ele é uma personagem linear, um mero exemplo de um determinado modus vivendi, também ele permeável à raiva e às tentações do Homem, como se pode ver pela carta que endereçou a Sebastião, onde fala do encanto das mulheres do Alentejo pela sua figura. Juliana é também uma personagem fulcral e que dinamiza a ação e a intriga; a forma como a dinâmica entre ela e a sua senhora muda a partir do momento em que a ama passa a deter o poder de estragar o seu estatuto e reputação é a perfeita evidência da superficialidade e da imoralidade em que a aristocracia e a burguesia portuguesa viviam no final do século XIX. Há que destacar também a personagem do Paula, um dos personagens característicos da rua onde vivem Jorge e Luiza e que no fundo funciona como consciência moral e juiz desta sociedade podre, embora seja relegado para um segundo plano, como mero observador. É um romance delicioso, cheio de humor e com uma boa dose de ação à mistura, ao mesmo tempo que evidencia uma relevante problematização do Portugal do século XIX - imoral, superficial, materialista, onde grassava uma burguesia que vivia de práticas extremamente reprováveis.