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tomasmoreira21_ 's review for:

Memorial do Convento by José Saramago
4.75
challenging reflective relaxing sad slow-paced

Saramago apresenta-se no geral como um grande desafio, um bicho de sete cabeças, fama essa que me afastou de ler o autor por vários anos porque receava não ser intelectualmente capaz de compreender o livro. Hoje entendo que os livros são diferentes para cada pessoa que os lê: não há paninhos quentes, além dos pontos de análise objetivos, muito de uma obra é deixado a cargo das interpretações e da relação do leitor com a história. O Memorial do Convento é um livro exímio, não só representa a maturidade da prosa de Saramago brilhantemente, mas também é o retrato de um povo que muito sofreu à custa de um regime monárquico, que de resto o autor não se cansa de criticar ou satirizar. 'Memorial' porque é a memória de um povo que fica esquecido nos livros de História - dizem que foi D. João V quem construiu o convento de Mafra mas, "formas de dizer" aparte, o rei não levantou uma única pedra para construir aquele que é hoje o monumento mais emblemático da cidade de Mafra. Nesse sentido, os protagonistas deste livro são Baltasar e Blimunda, um casal singular que se cruza num Auto de Fé, e cuja vida vai acabar por se enredar com o próprio convento em determinado momento. Baltar Sete-Sóis é um soldado que regressa da guerra sem a mão esquerda (alvo de uma das passagens mais hilárias do livro todo, na minha opinião) e Blimunda, mais tarde apelidada de Sete-Luas, é uma mulher com um poder desconcertante. A este enredo junta-se o padre Bartolomeu que sonha em poder voar e desafiar portanto as leis terrenas e todas as probabilidades, o que não de certeza é muito conveniente num tempo de repressão religiosa tão forte em Portugal. Não há muito que se possa dizer para fazer jus a esta livro - Saramago escreve como ninguém, não há forma de alguém se assemelhar ao seu estilo porque é algo demasiado intricado, inimitável. Sei que um livro é importante para mim quando abdicava de o ler por vezes porque naquele momento não estava com capacidade de dar a devida atenção a cada palavra que Saramago escreveu, apesar de o ter feito várias vezes. A crítica à Igreja e às religião talvez tenha sido das minhas partes favoritas da obra. O autor é mordaz e provocador e o narrador, a persona que Samarago cria para contar esta história confere uma outra vida ao romance. 
Devemos muito a Saramago enquanto portugueses - este livro é, além de como já mencionei, a memória de um povo, também a lembrança do que hoje somos ou continuamos a ser e do que precisamos de mudar.