A review by mathiaseichbaum
Morte e vida severina by João Cabral de Melo Neto

5.0

Monumental. A poesia seca e anti-edificante de João Cabral certamente poderia (e deveria) estar nos cânones da literatura universal.

Morte e Vida Severina e O Rio foram para mim os mais fortes, embora Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina também sejam fortes e excelentes livros.

Em especial esses dois primeiros apresentam a poesia seca, cheia de metáforas, mas desenhando uma vida sem vida, severina. O final de Morte e Vida mostra uma recriação do nascimento de Jesus no Recife, no mangue. Em que a vida é comprada dia a dia em pequenas partes, mas mesmo assim é vida. A esperança não é esperança, é a simples sobrevivência, a vida em si. Não há redenção externa, mas a pura e simples persistência da vida em si. Severino pensa em se matar, mas o menino nasce. O nascimento é a esperança do novo. Mas não se sabe se Severino de fato não se mata. O fato é que o retirante, como no poema O Rio, vai buscando a vida melhor no Recife, o que não existe necessariamente. O mar não salva. O que mostra que a questão não é a seca, mas o trabalho, a dureza de plantar na pedra é a dureza do trabalho, da exploração. O trabalho como é não é edificante, mas destruidor. Ele inibe a vida viva.

Sem palavras. Tocante, forte e muito pesado.