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mikesparrow's Reviews (220)
A cidade bondosa limpa a parte suja que o inferno deixou. Certos corações foram atravessados por um metal claro, amaldiçoados com aquilo que na guerra não é inútil: a matéria densa e incompatível com a vida. O morto confunde-se com uma parte do Outono, três homens roucos ou de voz baixa levantam a massa morta com os dedos fundamentais da higiene; entre as folhas leves castanhas o corpo também castanho, mas pesado. A cidade é eficaz. No céu há um outro mundo impávido.
Acabara de medir a largura da peça roubada ao hospital. Dado o facto de ser a primeira vez que fazia as medições depois do acidente, estava satisfeito: realizara a tarefa com relativa eficácia- Segurando a caneta, com três dedos a empurrarem de um lado e o polegar do outro, Joseph Walser, ainda com a letra tremida e hesitante, debaixo da coluna onde estava registado largura, escreveu: 1,15.
Como o mundo é simples, pensou.
A tristeza de Walser era, teremos de o dizer de novo, lógica e racional; era aquilo que podemos expressar como: melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia.
Um instante antes de os dados saírem da sua mão a sensação era a de que “tudo pode mudar”. Mas os dados saíam e nada mudava de concreto, após o instante de júbilo ou desilusão relativamente à face do dado que ficava para cima: “Nada mudou” era o que exclamaria se os seus pensamentos se tornassem subitamente visíveis.
A cabeça, Walser, estamos num período em que a cabeça é importante. Mantê-la acima do resto do organismo, entende?, acima. Em períodos conturbados a hierarquia deverá ser mantida a qualquer custo: e a cabeça, vossa excelência já o reparou concerteza, foi colocada, no organismo, em local, se assim se pode dizer, privilegiado. Em cima, entende?, no topo. Claro que, por vezes, quase seria melhor que o nosso cérebro estivesse colocado num outro local do organismo, mais protegido. Vim há pouco da rua, Walser, e vi um corpo, um homem - praticamente um homem, diria eu, agora - com a cabeça desfeita por duas balas. E é nestes momentos que se percebe que a inteligência deveria estar mais protegida, deveria ter sido colocada em sítios baixos e não em sítios altos, que são os mais visíveis. Bem vê: não há solução.
(...) o que nunca conseguira era ser exterior à indiferença; ser exterior a si nos momentos, inúmeros, em que se encontrava neutro face às coisas, inerte e em estado de espera perante a possibilidade de um acto ou do seu contrário. Quanto mais intensidade existia no corpo, mais fácil era afastar-se, ser testemunha de si próprio.
À medida que as semanas passavam tornava-se evidente que a guerra teria de ser interrompida. Havia como que uma saturação, digamos, obscenamente, estética: certo modo de a cidade se fragmentar tornara-se irritante, primeiro aos olhos e, a pouco e pouco, intolerável. Não era pois tanto uma imposição moral ou de sentimentos firmes que regressaram; tratava-se acima de tudo de um cansaço no olhar: a repetição das imagens tornava-se excessiva; a exaltação medrosa em frente a um cadáver desaparece, a violência explícita abandonara o espaço central das narrativas para ser integrada, de modo objectivo e neutro, em relatórios. O mais um dito em frente aos cadáveres tornara-se mais violento que a própria matéria, ali, caída, matéria desprovida já do algo humano que desaparecera da mesma forma imediata e misteriosa com que aparecera, no meio da família, no dia do seu nascimento. O desejo de guerra era derrubado, dia após dia, por via dessa fórmula puramente verbal, existente apenas no mundo da linguagem, sem ligações visíveis ao mundo das coisas, esse “mais um”. Era esse mais um que estava a terminar com a guerra. Porque a guerra desde há meses que se repetia, a sensação de já se ter visto isto começava a dominar até os mais ingénuos e os menos lúcidos.
(...)
Como manter a ansiedade no momento em que, de novo, se entra na primeira página? O que ocorreu a cidade, nas ruas, na casa, no país inteiro, nas facas da cozinha, o que ocorreu foi algo de semelhante ao cansaço estético; tão semelhante que se confunde. A guerra começou a entediar; primeiro os menos envolvidos, os que tinham menos a ganhar ou a perder, e depois, a pouco e pouco, até os mais pertos do centro, os que eram mais fortes e portanto mais ambiciosos. Sendo talvez a última das qualidades a enfraquecer, a ambição também entediou, também foi vista, a partir de certa altura, como uma repetição: quero mais, outra vez: E quando o tédio chegou aos mais fortes, aos que mais podiam perder ou ganhar, eis que estava próximo o fim daquilo que se repetia há tempo excessivo. Um sinal, a pouco e pouco, foi ganhando grossura e aproximando-se daquilo que é visível, ansiando por entrar materialmente no mundo. O fim da guerra aproximava-se.
Há quanto tempo, homens e mulheres não tinham direito à preguiça, aos momentos desprovidos de actos úteis, e mais que isso: aos momentos desprovidos de significado.
(...)
Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco, pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em período de guerra - momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem - era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
Acabou. Murmurava para si próprio, várias vezes no mesmo dia, e vários dias seguidos, parecendo não se cansar de o repetir, pois ainda não o sentia como repetição mas sim como algo surpreendente; repetia: acabou e estou vivo! Como se estranhamente estar vivo pudesse ser o final de alguma coisa.
No jardim, entretanto, avança-se, mas de modo dissipado, como se os corpos fossem matéria que se deixa evaporar. A preguiça instalada. É domingo e o céu não comete erros. Nem uma nuvem.
Acabara de medir a largura da peça roubada ao hospital. Dado o facto de ser a primeira vez que fazia as medições depois do acidente, estava satisfeito: realizara a tarefa com relativa eficácia- Segurando a caneta, com três dedos a empurrarem de um lado e o polegar do outro, Joseph Walser, ainda com a letra tremida e hesitante, debaixo da coluna onde estava registado largura, escreveu: 1,15.
Como o mundo é simples, pensou.
A tristeza de Walser era, teremos de o dizer de novo, lógica e racional; era aquilo que podemos expressar como: melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia.
Um instante antes de os dados saírem da sua mão a sensação era a de que “tudo pode mudar”. Mas os dados saíam e nada mudava de concreto, após o instante de júbilo ou desilusão relativamente à face do dado que ficava para cima: “Nada mudou” era o que exclamaria se os seus pensamentos se tornassem subitamente visíveis.
A cabeça, Walser, estamos num período em que a cabeça é importante. Mantê-la acima do resto do organismo, entende?, acima. Em períodos conturbados a hierarquia deverá ser mantida a qualquer custo: e a cabeça, vossa excelência já o reparou concerteza, foi colocada, no organismo, em local, se assim se pode dizer, privilegiado. Em cima, entende?, no topo. Claro que, por vezes, quase seria melhor que o nosso cérebro estivesse colocado num outro local do organismo, mais protegido. Vim há pouco da rua, Walser, e vi um corpo, um homem - praticamente um homem, diria eu, agora - com a cabeça desfeita por duas balas. E é nestes momentos que se percebe que a inteligência deveria estar mais protegida, deveria ter sido colocada em sítios baixos e não em sítios altos, que são os mais visíveis. Bem vê: não há solução.
(...) o que nunca conseguira era ser exterior à indiferença; ser exterior a si nos momentos, inúmeros, em que se encontrava neutro face às coisas, inerte e em estado de espera perante a possibilidade de um acto ou do seu contrário. Quanto mais intensidade existia no corpo, mais fácil era afastar-se, ser testemunha de si próprio.
À medida que as semanas passavam tornava-se evidente que a guerra teria de ser interrompida. Havia como que uma saturação, digamos, obscenamente, estética: certo modo de a cidade se fragmentar tornara-se irritante, primeiro aos olhos e, a pouco e pouco, intolerável. Não era pois tanto uma imposição moral ou de sentimentos firmes que regressaram; tratava-se acima de tudo de um cansaço no olhar: a repetição das imagens tornava-se excessiva; a exaltação medrosa em frente a um cadáver desaparece, a violência explícita abandonara o espaço central das narrativas para ser integrada, de modo objectivo e neutro, em relatórios. O mais um dito em frente aos cadáveres tornara-se mais violento que a própria matéria, ali, caída, matéria desprovida já do algo humano que desaparecera da mesma forma imediata e misteriosa com que aparecera, no meio da família, no dia do seu nascimento. O desejo de guerra era derrubado, dia após dia, por via dessa fórmula puramente verbal, existente apenas no mundo da linguagem, sem ligações visíveis ao mundo das coisas, esse “mais um”. Era esse mais um que estava a terminar com a guerra. Porque a guerra desde há meses que se repetia, a sensação de já se ter visto isto começava a dominar até os mais ingénuos e os menos lúcidos.
(...)
Como manter a ansiedade no momento em que, de novo, se entra na primeira página? O que ocorreu a cidade, nas ruas, na casa, no país inteiro, nas facas da cozinha, o que ocorreu foi algo de semelhante ao cansaço estético; tão semelhante que se confunde. A guerra começou a entediar; primeiro os menos envolvidos, os que tinham menos a ganhar ou a perder, e depois, a pouco e pouco, até os mais pertos do centro, os que eram mais fortes e portanto mais ambiciosos. Sendo talvez a última das qualidades a enfraquecer, a ambição também entediou, também foi vista, a partir de certa altura, como uma repetição: quero mais, outra vez: E quando o tédio chegou aos mais fortes, aos que mais podiam perder ou ganhar, eis que estava próximo o fim daquilo que se repetia há tempo excessivo. Um sinal, a pouco e pouco, foi ganhando grossura e aproximando-se daquilo que é visível, ansiando por entrar materialmente no mundo. O fim da guerra aproximava-se.
Há quanto tempo, homens e mulheres não tinham direito à preguiça, aos momentos desprovidos de actos úteis, e mais que isso: aos momentos desprovidos de significado.
(...)
Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco, pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em período de guerra - momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem - era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
Acabou. Murmurava para si próprio, várias vezes no mesmo dia, e vários dias seguidos, parecendo não se cansar de o repetir, pois ainda não o sentia como repetição mas sim como algo surpreendente; repetia: acabou e estou vivo! Como se estranhamente estar vivo pudesse ser o final de alguma coisa.
No jardim, entretanto, avança-se, mas de modo dissipado, como se os corpos fossem matéria que se deixa evaporar. A preguiça instalada. É domingo e o céu não comete erros. Nem uma nuvem.