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"E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia."
O livro conta na verdade com diversas obras do autor: O rio (1953), Paisagens com Figuras (1954-55), Morte e Vida Severina (1954-55), Uma faca só lâmina(1955). Na introdução do livro temos uma análise rápida das quatro obras e do estilo de escrita do autor em cada uma delas.
As minhas obras preferidas foram O rio, e Morte e Vida Severina. Em O rio temos um estilo mais documental, sem emoção, acompanhamos a viagem do rio, percorrendo com ele, toda a sua extensão do Capibaribe até Recife.
Em Morte e Vida Severina ou O auto de Natal Pernambucano, temos a história de Severino, um retirante, que realiza o mesmo trajeto feito pelo rio, enquanto foge da seca. O formato de escrita de um auto sempre tem uma construção muito boa e leve, que deixa divertida a leitura (me faz lembrar das aulas de literatura do cursinho, onde a professora fazia todo mundo ler junto)
A parte mais interessante da segunda obra pra mim, Paisagens com Figuras, foi conseguir perceber, com o esclarecimento do texto de introdução, que todos os poemas eram construídos com jogos de comparações entre imagens, inclusive lembranças de sua vida em Recife e na Espanha.
Apesar do livro todo ser bom, e da introdução ser bem enriquecedora pra quem ainda está começando a ler cada vez mais poesia, eu ainda não consigo me apaixonar extremamente por livros de poesia, então vamos de 3 estrelas
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia."
O livro conta na verdade com diversas obras do autor: O rio (1953), Paisagens com Figuras (1954-55), Morte e Vida Severina (1954-55), Uma faca só lâmina(1955). Na introdução do livro temos uma análise rápida das quatro obras e do estilo de escrita do autor em cada uma delas.
As minhas obras preferidas foram O rio, e Morte e Vida Severina. Em O rio temos um estilo mais documental, sem emoção, acompanhamos a viagem do rio, percorrendo com ele, toda a sua extensão do Capibaribe até Recife.
Em Morte e Vida Severina ou O auto de Natal Pernambucano, temos a história de Severino, um retirante, que realiza o mesmo trajeto feito pelo rio, enquanto foge da seca. O formato de escrita de um auto sempre tem uma construção muito boa e leve, que deixa divertida a leitura (me faz lembrar das aulas de literatura do cursinho, onde a professora fazia todo mundo ler junto)
A parte mais interessante da segunda obra pra mim, Paisagens com Figuras, foi conseguir perceber, com o esclarecimento do texto de introdução, que todos os poemas eram construídos com jogos de comparações entre imagens, inclusive lembranças de sua vida em Recife e na Espanha.
Apesar do livro todo ser bom, e da introdução ser bem enriquecedora pra quem ainda está começando a ler cada vez mais poesia, eu ainda não consigo me apaixonar extremamente por livros de poesia, então vamos de 3 estrelas
emotional
fast-paced
Monumental. A poesia seca e anti-edificante de João Cabral certamente poderia (e deveria) estar nos cânones da literatura universal.
Morte e Vida Severina e O Rio foram para mim os mais fortes, embora Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina também sejam fortes e excelentes livros.
Em especial esses dois primeiros apresentam a poesia seca, cheia de metáforas, mas desenhando uma vida sem vida, severina. O final de Morte e Vida mostra uma recriação do nascimento de Jesus no Recife, no mangue. Em que a vida é comprada dia a dia em pequenas partes, mas mesmo assim é vida. A esperança não é esperança, é a simples sobrevivência, a vida em si. Não há redenção externa, mas a pura e simples persistência da vida em si. Severino pensa em se matar, mas o menino nasce. O nascimento é a esperança do novo. Mas não se sabe se Severino de fato não se mata. O fato é que o retirante, como no poema O Rio, vai buscando a vida melhor no Recife, o que não existe necessariamente. O mar não salva. O que mostra que a questão não é a seca, mas o trabalho, a dureza de plantar na pedra é a dureza do trabalho, da exploração. O trabalho como é não é edificante, mas destruidor. Ele inibe a vida viva.
Sem palavras. Tocante, forte e muito pesado.
Morte e Vida Severina e O Rio foram para mim os mais fortes, embora Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina também sejam fortes e excelentes livros.
Em especial esses dois primeiros apresentam a poesia seca, cheia de metáforas, mas desenhando uma vida sem vida, severina. O final de Morte e Vida mostra uma recriação do nascimento de Jesus no Recife, no mangue. Em que a vida é comprada dia a dia em pequenas partes, mas mesmo assim é vida. A esperança não é esperança, é a simples sobrevivência, a vida em si. Não há redenção externa, mas a pura e simples persistência da vida em si. Severino pensa em se matar, mas o menino nasce. O nascimento é a esperança do novo. Mas não se sabe se Severino de fato não se mata. O fato é que o retirante, como no poema O Rio, vai buscando a vida melhor no Recife, o que não existe necessariamente. O mar não salva. O que mostra que a questão não é a seca, mas o trabalho, a dureza de plantar na pedra é a dureza do trabalho, da exploração. O trabalho como é não é edificante, mas destruidor. Ele inibe a vida viva.
Sem palavras. Tocante, forte e muito pesado.
emotional
reflective
fast-paced
Plot or Character Driven:
Character
Strong character development:
N/A
Loveable characters:
Yes
Diverse cast of characters:
Yes
Flaws of characters a main focus:
Yes
challenging
inspiring
reflective
medium-paced
É difícil especificar o que eu senti ao ler essa obra de João Cabral de Melo e Neto. Fui inicialmente até essa obra devido aos inúmeros paralelos que se faziam do plano poesia-prosa entre essa obra e Vidas Secas de Graciliano Ramos. Ambas obras abordam um assunto pelo qual desenvolvi um interesse: a secura não só do clima, mas também uma quase inexorável secura da vida. A obra de João Cabral é especialmente tocante, pois faz com que você se convença de que realmente a vida severina não é uma vida, mas sim um meio termo entre a vida e a morte sem uma definição a respeito do que vem depois. O final da poesia mostra que a vida segue não misturada à morte, mas sim quando a própria vida brota, dando esperanças quando essas possivelmente já se foram.
Bem, eu não estou dando avaliações para os livros de leitura obrigatória, mas esse seria, com toda a certeza, cinco estrelas. Apesar de uma leitura um pouco monótona em minha opinião, João Cabral de Melo Neto consegue fazer tantas críticas e ressaltar tanto a Vida Severina dos retirantes nordestinos. Um livro escrito a tantos anos atrás e com uma realidade tão triste. Gostei muito.
dark
emotional
reflective
sad
medium-paced
Plot or Character Driven:
Character
Strong character development:
Complicated
Loveable characters:
Complicated
Diverse cast of characters:
N/A
Flaws of characters a main focus:
Complicated
"E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia"
Severino,fugindo das mazelas do sertão nordestino, ruma ao litoral em busca de melhores oportunidades na vida.
Seu percurso até Recife resume-se a uma sequência desanimadora de situações revelando que a miséria e a morte são o destino único daqueles que, obrigados a cultivar um solo seco, nada podem fazer senão enterrar os que não resistem.
Quando chega a Recife o retirante escuta dois coveiros reclamando dos sertanejos que vão para a cidade grande apenas para morrer. Neste momento, Severino pela primeira vez se desilude e pensa em suicídio, mas o nascimento de uma criança vem indicar que a força da vida sobrepõe-se às terríveis condições econômicas
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia"
Severino,fugindo das mazelas do sertão nordestino, ruma ao litoral em busca de melhores oportunidades na vida.
Seu percurso até Recife resume-se a uma sequência desanimadora de situações revelando que a miséria e a morte são o destino único daqueles que, obrigados a cultivar um solo seco, nada podem fazer senão enterrar os que não resistem.
Quando chega a Recife o retirante escuta dois coveiros reclamando dos sertanejos que vão para a cidade grande apenas para morrer. Neste momento, Severino pela primeira vez se desilude e pensa em suicídio, mas o nascimento de uma criança vem indicar que a força da vida sobrepõe-se às terríveis condições econômicas
5.0/5.0
Meu avô não falava de como foi quando ele retirou. Eu sei que ele andou sete dias a pé, muita gente morreu, os irmãos dele, quase todos os irmãos, dois na mesma semana, os pais, os primos, a família toda. Todos os nossos parentes são vizinhos. Meu avô enterrou muita gente. Meu avô andou muito a pé. Meu avô tinha medo de cobra, ele amava o sol. A gente brincava que não tinha cabimento alguém que fugiu tanto da seca amar tanto o sol. Ele amava os cachorros. Tinha pavor de deixar filho órfão. Tinha pavor de morrer na cama. Morreu na cama. Meu avô foi a pessoa mais forte que eu conheci. Ele nunca voltou pro Norte, e nunca falou do Norte. Mas João Cabral de Melo Neto falou, e eu agradeço todas as vezes que me lembro que alguém teve forças pra falar dessa realidade que meu avô viveu. Porque eu não quero nunca que esqueçam que a gente é filho dessa história.
Meu avô não falava de como foi quando ele retirou. Eu sei que ele andou sete dias a pé, muita gente morreu, os irmãos dele, quase todos os irmãos, dois na mesma semana, os pais, os primos, a família toda. Todos os nossos parentes são vizinhos. Meu avô enterrou muita gente. Meu avô andou muito a pé. Meu avô tinha medo de cobra, ele amava o sol. A gente brincava que não tinha cabimento alguém que fugiu tanto da seca amar tanto o sol. Ele amava os cachorros. Tinha pavor de deixar filho órfão. Tinha pavor de morrer na cama. Morreu na cama. Meu avô foi a pessoa mais forte que eu conheci. Ele nunca voltou pro Norte, e nunca falou do Norte. Mas João Cabral de Melo Neto falou, e eu agradeço todas as vezes que me lembro que alguém teve forças pra falar dessa realidade que meu avô viveu. Porque eu não quero nunca que esqueçam que a gente é filho dessa história.